O MESTRE-SALA DOS MARES
Há muito tempo nas aguas da Guanabara
O dragão do mar reapareceu
Na figura de um bravo feiticeiro
A quem a história não esqueceu...
Conhecido como o navegante negro
Tinha a dignidade de um mestre sala
E ao acenar pelo mar na alegria das regatas
Foi saudado no porto pelas mocinhas francêsas
Jovens polacas e por batalhões de mulatas!
Rubras cascatas jorravam das costas
dos santos entre cantos e chibatas
Inundando o coração do pessoal do porão
Que a examplo do feiticeiro gritava então:
Glória aos piratas, às mulatas, às sereias
Glória à farofa, à cachaça, às baleias
Glória a todas as lutas inglórias
Que através da nossa história
Não esquecemos jamais!
Salve o navegante negro
Que tem por monumento
As pedras pisadas do cais!
Mas faz muito tempo...
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COMENTÁRIO CRÍTICO:
ESTE SAMBA FOI COMPOSTO DE MODO A APROVEITAR TODA A TRADIÇÃO DO SAMBA DE ENREDO. JOÃO BOSCO E ALDIR BLANC BASEARAM-SE NO FAMOSO EPISÓDIO DA “REVOLTA DA CHIBATA”:
O marinheiro João Cândido, o “Comandante Negro”, liderou o motim dos marujos na Baía da Guanabara contra os maus-tratos e castigos físicos impostos por oficiais. No episódio conhecido como “A Revolta da Chibata”.
OS AUTORES COMEÇAM CONTANDO UMA HISTÓRIA NOS VELHOS MOLDES: “HÁ MUITO TEMPO...” CURIOSO É QUE NEM HAVIA TANTO TEMPO ASSIM. O EPISÓDIO SE PASSOU NO COMEÇO DO SÉCULO; MAS OS POETAS, MAIS INTERESSADOS EM CRIAR UM CLIMA LENDÁRIO PARA A HISTÓRIA E PENSO QUE COMPREENDENDO PERFEITAMENTE O QUANTO ESSE DISTANCIAMENTO PODERIA PRODUZIR DE IRONIA, USARAM DO RECURSO POÉTICO! POIS, NESSE “HÁ MUITO TEMPO”, NAS ÁGUAS DA GUANABARA, O “DRAGÃO DO MAR”REAPARECEU NA FIGURA DE UM BRAVO FEITICEIRO, A QUEM A HISTÓRIA NÃO ESQUECEU. BEM, NÃO ESQUECEU, MAS QUASE. AFINAL, A HISTÓRIA OFICIAL (TANTAS VEZES IMPOSTA GOELA ABAIXO DAS ESCOLAS DE SAMBA, NÃO EXATAMENTE MORRE DE AMORES POR AQUELES QUE DESAFIAM A ORDEM ESTABELECIDA! ESTE É O CASO! LOGO, TAMBÉM ISSO ESTÁ MAIS NO CAMPO DA IRONIA QUE NO DO AUTÊNTICO SAMBA EXALTAÇÃO, ONDE SIM, MUITO SE FALOU EM “ESCRITO NA HISTÓRIA”, SERÁ LEMBRADO PARA SEMPRE”, ETC
VEJA-SE QUE OS POETAS USAM OS ÍCONES DO GÊNERO, MAS EXISTE EM TUDO UM SINAL CONTRÁRIO, MAIS DEBOCHADO QUE PERFILADO!
NA SEGUNDA PARTE, JÁ CRIADA A ATMOSFERA, OS POETAS FALAM-NOS DELE, O NAVEGANTE NEGRO SAUDADO POR MOCINHAS BRANCAS ESTRANJEIRAS E TURISTAS QUE VIAM NAQUILO MAIS UM EXOTISMO DA TERRA TROPICAL QUE UM GRAVE CASO SOCIAL!
ESSE INESPERADO APOIO, MAIS FESTIVO QUE POLÍTICO, MAIS CARNAVALESCO QUE FRUTO DA CONSCIÊNCIA TEM COMO INGÊNUA RESPOSTA DAQUELES DE QUEM JORRAVAM “RUBRAS CASCATAS” (EUFEMISMO PRA LÁ DE IRÔNICO – MAS BEM AO GOSTO DO GÊNERO- PARA SANGUE E VIOLÊNCIA) UMA INUSITADA CANTORIA EM QUE SE GLORIA DE UM TUDO: FAROFA, BALEIA, SEREIA, CACHAÇA, MULATA , PIRATA (NOTE-SE QUE A RIMA SUPERA DEBOCHADAMENTE A BUSCA DE SENTIDO) E TODAS AS LUTAS INGLÓRIAS!
AÍ SIM, SUBREPTICIAMENTE, DE CHOFRE, SEM DEBOCHE OU FINGIMENTO ESTÁ O TEMA: GLÓRIA A TODAS AS LUTAS MODESTAS, QUE NÃO DÃO GLÓRIA PORQUE NÃO ATINGEM OS INTERESSES DAS CLASSES DOMINANTES, QUE NÃO VÃO PARAR NA HISTÓRIA OFICIAL!
ESSAS LUTAS CUJO ÚNICO MONUMENTO SÃO AS PEDRAS PISADAS DO CAIS!
QUE GRANDE SAMBA! QUE BELO POEMA! QUE USO MAIS DO QUE NOBRE DAS ESTRATÉGIAS DO GÊNERO!
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