ÁFRICAS: DO BERÇO REAL À CORTE BRASILIANA
GRES BEIJA-FLOR DE NILÓPOLIS - 2007

Autor(es) Cláudio Russo, J. Veloso, Carlinhos do Detran e Gilson Dr.
Intérprete(s) Neguinho da Beija-Flor



SAMBA da beija-flor em 2007 - ÁFRICAS

Foto-montagem feita
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ÁFRICAS: DO BERÇO REAL À CORTE BRASILIANA






Olodumaré, o Deus maior, o Rei Senhor 
Olorum derrama a sua alteza na Beija-Flor 
Oh! Majestade negra, Oh! Mãe da liberdade 
África: O baobá da vida Ilê Ifé 
Áfricas:Realidade e realeza, axé 
Calunga cruzou o mar 
Nobreza a desembarcar na Bahia 
A fé nagô-yorubá, 
Um canto pro meu orixá tem magia 
Machado de Xangô, Cajado de Oxalá 
Ogum yê, o onirê, ele é Odara

É jeje, é jeje, é querebentã 
A luz que vem de Daomé, reino de Dan 
Arte e cultura casa da mina 
Quanta bravura negra divina

Zumbi é rei 
Jamais se entregou, rei guardião 
Palmares hei de ver pulsando em cada coração 
Galanga pó de ouro e a remissão enfim 
Maracatu chegou rainha ginga 
Gamboa, a pequena África de Obá 
Da Pedra do Sal viu despontar a Cidade do Samba 
Então dobre o run 
Pra Ciata d`Oxum imortal 
Soberana do meu carnaval na princesa nilopolitana 
Agoye o mundo deve o perdão 
A quem sangrou pela história 
Áfricas de luta e de glória

Sou quilombola Beija-Flor 
Sangue de rei, comunidade 
Obatalá anunciou 
Já raiou o sol da liberdade			







COMENTÁRIO CRÍTICO:

Celebrar a África é, acima de tudo, um momento de memória, o resgate da herança que vem reafirmar o nosso compromisso genético. É um instante precioso, de lembrança ao povo brasileiro mestiço, esse povo brasileiro que é também africano.
É uma exaltação a todos que viveram o horror do cativeiro, mas que não deixaram aprisionar o espírito, a alma africana, a fibra que une o indivíduo à ancestralidade.
O objetivo, porém, foge da narrativa do sofrimento vivido nas terras de escravidão; o avesso dessa história vem coroar a majestade africana.
Falamos não apenas de uma África, este enredo faz emergir muitas Áfricas, cacos de um mesmo pote que na diáspora ocorrida nas travessias dos tumbeiros, vieram se espalhar pelo novo mundo e que nessas terras de exílio, os filhos e filhas da África – Mãe tiveram que colar, juntando fragmentos das suas e de outras Áfricas originárias, pincelando com tintas e vernizes dessa nova terra, criando assim novos potes, novas Áfricas.
Assim como quartinhas, nelas foram guardando suas identidades tribais, suas crenças, costumes, lembranças, ferramentas da reconstrução de suas humanidades.
Mostramos em desfile a África - Mãe e sua gênese, a realidade e a realeza e outras tantas Áfricas realizadas, onde, de uma forma ou de outra, existiram reis e príncipes, rainhas e princesas, de reinados e reisados, de cortes e cortejos.
Por isso, a Beija-Flor que é, uma entre tantas outras pequenas Áfricas, vem tecer o fio da memória, evocando sua ancestralidade para unir dois mundos: - Á África real e a Corte Brasiliana.
Alexandre Louzada – Fran-Sérgio – Laíla – Shangai & Ubiratan Silva Comissão de Carnaval

SINOPSE
Voa Beija-Flor em seu sonho alado, a cintilar na imensidão do universo de Olorum e faz rufar tambores ancestrais, explodindo em luz como sopro divino da mágica da criação. E no espaço disperso, abrindo caminhos de Legbará, no vento, nos leva na viagem do tempo ao berço real da humanidade, Baobá da vida no esplendor de seu despertar.
Resplandece qual visão aos olhos do imenso infinito e traz Oduduá, iluminado mito, unindo quatro elementos para dar forma e movimento a obra de Obatalá. Da vida em transformação, faz surgir o mundo, a África, a majestade viva, fervilhante dádiva, diva sob o sol dourado coroada de poder e nobreza, soberana mítica e mística altiva alteza, coberta pelo manto ébano da noite, na pele negra de seus filhos e com a cabeça erguida, ungida do axé dos orixás.
Hoje o samba vem mostrar seu legado e faz do pranto lembranças distantes, das lágrimas, pérolas e diamantes, do sofrimento e da resistência, o seu rico tesouro.
Vem transformar o banzo, o sentimento acorrentado num elo forte de ouro, uma aliança com Aruanda, da trajetória dos tumbeiros, criar uma odisséia de bravura de quem venceu o inferno mar, na travessia da Calunga levar uma oferenda como quem se entrega ao destino no doce abraço de Iemanjá e no violento jogo do oceano, uma dança a cada onda, vislumbrando no horizonte a esperança de outra África por encontrar.
Que se abram os braços do Brasil, os portões das senzalas, pequenas Áfricas de quintais; que se iluminem os terreiros à luz da “Lua de Luanda” para reinarem na noite seus bravos guerreiros que sob o braço do açoite não se curvaram jamais. Que se torne a luta pela liberdade, a volta por cima da capoeira e que o ferro que marca e fere, forje a África brasileira.
Ave Bahia! Na graça de todos os santos da África pois o sangue e o suor te fazem sagrada e as correntes do cativeiro te bordam um manto de fé, com a nobreza de princesa de Nação Nagô, de alma africana livre, embalando o berço do Candomblé.
Que se faça aportar Mina Jeje à Cidade dos Azulejos, tão azuis quanto as águas profundas desse grande mar, Agoê revolto que separa as terras de Agongolo, dessa África de cá. Que faça morada dos espíritos, dos tambores da noite e da realeza de Daomé, que seja o trono místico da escrava-rainha, essa ilha África imaginária, a terra da encantaria, dos Voduns, da feitiçaria, das divindades da terra e do ar. O gomé do gentio, a corte do além, impregnada de magia e transbordada de fé.
Que venha nos mostrar as trilhas ocultadas nas brenhas das matas dos “Cafundós” do Brasil, os caminhos de determinação e coragem, da fuga para a libertação.
Ser mais um quilombola guerreiro nas Áfricas deste sertão, formando assim um grande exército, uma livre nação, guardiã de Zumbi dos Palmares, anjo negro, rei da luta e rompimento, consciência e razão.