AQUARELA BRASILEIRA
GRES IMPÉRIO SERRANO - 1964 e 2004

Autor(es)Silas de Oliveira
Intérprete(s)



SAMBA 22

Foto-montagem feita
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AQUARELA BRASILEIRA

Vejam essa maravilha de cenário
É um episódio relicário
Que o artista num sonho genial
Escolheu para este carnaval
E o asfalto como passarela
Será a tela do Brasil em forma de aquarela
Passeando pelas cercanias do Amazonas
Conheci vastos seringais
No Pará, a ilha de Marajó
E a velha cabana do Timbó
Caminhando ainda um pouco mais
Deparei com lindos coqueirais
Estava no Ceará, terra de Irapuã
De Iracema e Tupã 
E fiquei radiante de alegria
Quando cheguei na Bahia
Bahia de Castro Alves, do acarajé
Das noites de magia, do candomblé
Depois de atravessar as matas do Ipú
Assisti em Pernambuco
A festa do frevo e do maracatu
Brasília tem o seu destaque
Na arte, na beleza, arquitetura
Feitiço de garoa pela serra
São Paulo engrandece a nossa terra
Do leste, por todo o Centro-Oeste
Tudo é belo e tem lindo matiz
No Rio dos sambas e batucadas
Dos malandros e mulatas
De requebros febris
Brasil, essas nossas verdes matas
Cachoeiras e cascatas
De colorido sutil
E este lindo céu azul de anil 
Emoldura em aquarela o meu Brasil



COMENTÁRIO CRÍTICO:

REZA A LENDA QUE ARI BARROSO MORREU EM 1964, DURANTE O DESFILE DA IMPÉRIO SERRANO QUE HOMENAGEAVA SUA CANÇÃO IMORTAL. A LENDA É TÃO BONITA QUE NÃO CORRO ATRÁS DA VERDADE PARA NÃO ME DESAPONTAR COM UMA REALIDADE BEM MAIS PROSAICA.
A ESCOLA TERMINOU EM 4º LUGAR, NÃO MERECIA MUITO MELHOR SORTE, AO QUE DIZEM, MAS O SAMBA É SUCESSO ATÉ HOJE. PUDERA! É UMA BELEZA! MELODICAMENTE ENVOLVENTE, POETICAMENTE FOGE DE DUAS TENTAÇÕES QUE LHE TERIAM SUBTRAÍDO VALOR: O PRIMEIRO , IMITAR OU SEGUIR NO MESMO SENTIDO DE AQUARELA DO BRASIL E O SEGUNDO, TENTAR CANTAR ESTADO POR ESTADO DA FEDERAÇÃO (ABSURDO QUE NAQUELA ÉPOCA DE SAMBAS ENORMES NÃO SERIA DE TODO IMPROVÁVEL!).ÓTIMO! NÃO FEZ NEM UMA COISA NEM OUTRA E É UM FENÔMENO DE POPULARIDADE!
COMEÇA COM UM CONVITE AO PÚBLICO PARA VER A MARAVILHA DE CENÁRIO QUE É O BRASIL EM FORMA DE AQUARELA NA TELA DO ASFALTO! EM SUTIS PINCELADAS, TOCA NOS PONTOS MAIS RELEVANTES DO BRASIL DA DÉCADA DE SESSENTA, SEMPRE COM GRAÇA, LEVEZA E DISSIMULADA DESCRITIVIDADE, UMA VEZ QUE DE CADA LUGAR SURGEM ÍCONES E SÍMBOLOS SEM UM PARALELISMO PRECISO!
AO FIM O CÉU AZUL DE ANIL EMOLDURA E AQUARELA O BRASIL! UMA SINGELA E GRACIOSA HOMENAGEM DO MESTRE SILAS DE OLIVEIRA. UM GÊNIO DO SAMBA, A OUTRO GÊNIO.
HOJE LAMENTO DESCONFIAR QUE ESTE MESMO SAMBA, SE TIVESSE QUE SER COMPOSTO PARA UM DESFILE ATUAL, ACABARIA TENDO EMENDADO A SI UM REFRÃO DE CONTEÚDO POPULARESCO RASTEIRO E FÁCIL! SERIA PROSAICAMENTE MARCADO POR ALGUMA EVENTUALIDADE POLÍTICA OU ESPORTIVA E, SENDO ASSIM, DUVIDO QUE FOSSE TÃO COMOVENTE!
EM 2004, O IMPÉRIO REPRISOU ESTE SAMBA E O MESMO ENREDO NA SAPUCAÍ. UMA GRANDE APRESENTAÇÃO QUE LHE RENDEU O ESTANDARTE DE OURO DE MELHOR SAMBA. MERECIDÍSSIMO! QUANTO ÀS SUCESSIVAS CRÍTICAS DE NÃO TER SILAS INCLUÍDO O SUL, VIDE O TEXTO ABAIXO. QUERO CITAR AQUI UMA HISTÓRIA QUE ME CHEGOU POR E-MAIL DA QUAL NÃO POSSO DAR FÉ, MAS PARECEU-ME PLAUSÍVEL: SILAS TERIA SIM INCLUÍDO EXAUSTIVAMENTE TODOS OS ESTADOS, MAS AO OUVIR O SAMBA, UM AMIGO (MANO DÉCIO?) TERIA OBJETADO QUE O SAMBA TINHA TRECHOS ARRASTADOS E QUE COMPROMETIAM O ANDAMENTO. ELE ENTÃO, RESOLVEU CITAR EXEMPLIFICATIVAMENTE OS ESTADOS POR REGIÕES.

UMA NOTÁVEL ANÁLISE DE FÁBIO PAVÃO

Vamos tentar fazer justiça ao Silas de Oliveira.
Às vezes vejo algumas mensagens, essa não foi a primeira, que parecem afirmar ter sido um grande equívoco do Silas de Oliveira não ter citado a região sul. Confesso que, a princípio, também tinha essa impressão. Entretanto, agora, refletindo sobre a obra de Silas, acho que é fundamental relativizarmos alguns pontos para entendermos a proposta do autor.
O samba é quase sempre interpretado como uma tentativa de mostrar as regiões do Brasil através da citação de alguns estados. Dessa forma, ao falar da Bahia e de Pernambuco, por exemplo, Silas estaria citando o nordeste. Ao mencionar Brasília, o centro-oeste. É por aí que se percebe o suposto erro de Silas, pois nenhum estado da região sul foi citado.
Entretanto, no ano de 1964, as regiões do país estavam divididas da seguinte forma:
Norte: Acre, Amazonas, Rondônia, Pará, Amapá e Roraima
Centro-oeste: Mato Grosso e Goiás
Nordeste: Maranhão, Piauí, Ceará, R.G. do Norte, Paraíba, Pernambuco e Alagoas
Sudeste: Rio de Janeiro, Guanabara, Espírito Santo, Minas Gerais, BAHIA E SERGIPE
Sul: RG do Sul, Santa Catarina, Paraná e SÃO PAULO
Então, partindo do princípio de que essa interpretação do samba está correta, Silas de Oliveira citou sim estados de todas as regiões do Brasil, simplesmente não poderia adivinhar que essa divisão política das regiões seria revista anos mais tarde. Ele não cita RG do Sul, Santa Catarina e Paraná, que hoje formam sozinhos uma região, mas também não cita Roraima, Rondônia, Acre, Maranhão, Sergipe, Minas Gerais e muitos outros.
Entretanto, é importante nos perguntarmos se, mesmo citando estados de todas as regiões de sua época, teria sido realmente essa a intenção de Silas. Será que ele tinha em mente fazer uma viagem pela divisão política das regiões do Brasil? Ou essa divisão política não está, na verdade, em nossa forma de interpretar o samba, por se constituir em uma forma de classificação que usamos naturalmente para pensar uma viagem pelo Brasil?
Por que uma descrição do Brasil precisa obrigatoriamente se referir as suas regiões políticas? Na Viradouro, a divisão política estava claro, bem como na Gaviões do Jorge Freitas, mas porque o Império Serrano em 2004 precisa se ater a essa divisão?
Na letra de seu samba, não vejo nada que indique a intenção de se referir a divisão política do Brasil. Vejo um samba que se preocupa em mostrar as belezas naturais e culturais do país, através da citação das particularidades de vários estados. O que percebo, é que Silas está querendo mostrar que as riquezas naturais e culturais estão presentes em todas as partes do Brasil, e usa para isso PONTOS CARDEAIS, E NÃO A DIVISÃO POLÍTICA OFICIAL. Centro-oeste é uma região ? Tá, mas o Brasil nunca teve uma região chamada Leste.
Em suma, acho que a obra de Silas é antes de tudo uma descrição do Brasil, e não uma descrição através das regiões do país, muito menos uma descrição dessas regiões. Essas três coisas são diferentes.
Vale citar mais duas coisas que podem reforçar essa forma de interpretar a obra de Silas
A primeira é que, Segundo depoimento de José Carlos Rego, na letra original do samba Silas não teria incluído São Paulo. O estado foi incluído depois porque ele ( José Carlos) teria notado um erro na letra original, e mostrado para Silas a importância de São Paulo. Isso talvez ajude a mostrar que Silas, mesmo citando todos os estados da divisão política de sua época, não teria tido essa intenção.
A segunda é ainda mais clara: onde estão as regiões do Brasil na "Aquarela do Brasil" do Ari Barroso? O que temos é uma descrição das particularidades do país. É lícito imaginarmos que a aquarela de Silas, assim como a de Ari, seja na verdade uma exaltação do Brasil por sua cultura e riquezas naturais, que estão presentes nos mais variados recantos.
Sobre a obra do Ari Barroso, para complementar, ela foi escrita em 1939, em pleno Estado Novo. A letra está completamente de acordo com a ideologia homogeneizante do período, descrevendo o Brasil como unidade. Não faria sentido pensar um país dividido por regiões, pois a totalidade é que era exaltada. Sabemos que essa ideologia que destacava a unidade em detrimento das divisões regionais se expandiu através dos anos. É lícito nos indagarmos se, além de uma influência direta da obra do Ari sobre Silas, essa idéia de Brasil como unidade também não fosse predominante em 1964, de forma que, diferente de hoje, essa divisão do país por regiões fosse irrelevante e secundária numa descrição.
Em outras palavras, estamos analisando uma obra feita em 1964 fora de seu contexto ideológico. Estamos interpretando-a com nossas categorias hoje relevantes, mas que, na época de Silas, era simplesmente secundária.
O Império não tem necessidade de fazer uma viagem pelas divisões políticas do país, pois elas não passam de simples formas de classificação. Se optar por fazer, os jurados devem ter sensibilidade para interpretar as particularidades da obra de Silas, tentando entender seu real contexto. Essa é uma das questões para se analisar os "remakes".

Fábio Pavão
(Pesquisador de carnaval e webmaster do site do G.R.E.S. Portela)